Linguagens

Sugestão para a amiga que sofre (e o pior, que sofre sozinha)

Agosto 29, 2007 · 1 Comentário

  Eu também poderia chamar este texto de “Conselhos de uma mulher de 22 anos para uma de 17”, mas acho que conselhos são idéias de alguém que não fez alguma coisa e fica atormentando o outro para que ele faça. Algo como realizar-se em outro ser.

   Pois é, minha amiga! Você é um ser. Portanto, não preocupe-se em ser perfeita. Não sei se alguém já lhe disse: é permitido sofrer, chorar, desesperar-se. É permitido ser você.

   Já dizia a minha avó (e o Ferreira Gullar também) que “no mundo há muitas armadilhas. E o que é armadilha pode ser refúgio. E o que é refúgio pode ser armadilha”. Não quero que você caia na armadilha da falsidade. Na armadilha de uma vida inteira disfarçando sentimentos. Mascarar é uma armadilha, não um refúgio.   Será que amigas não podem dividir todos os tipos de sensações? Entre nós, há um contrato, como em um casamento, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”. Preocupo-me com você, ou melhor, com você não. E sim com a sua insistência em só nos dar alegrias.   Já está cansada da vida? Não é possível! Não!   Divido a minha felicidade com você e quero que você compartilhe comigo a sua tristeza. Sei que você acredita em outras vidas e que terá tempo de mudar o que deu errado, entretanto, eu só tenho uma. Só tenho esta chance pra intrometer na sua vida! (risos) 

“No mundo há muitas armadilhas
        e o que é armadilha pode ser refúgio
        e o que é refúgio pode ser armadilha 

Tua janela por exemplo
       aberta para o céu
       e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
     a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas
       e muitas bocas a te dizer
       que a vida é pouca
       que a vida é louca
       E por que não a Bomba? te perguntam.
       Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
       que a vida é louca? 

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
       que não sabe
       que afoito se entranha à vida e quer
       a vida
       e busca o sol, a bola, fascinado vê
       o avião e indaga e indaga 

A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade. 

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e agüentarás até o fim. 

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje 

A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.” (Ferreira Gullar)

→ 1 ComentárioCategorias: Uncategorized

“Os otimistas escrevem mal”

Agosto 21, 2007 · 3 Comentários

   Abri o jornal de manhã e dei de cara com esta frase filosófica e poética do título. O dono da boca que libertou essas palavras tão oportunas para o dia de hoje atendia pelo nome de Paul Valéry. O que me impressionou ainda mais foi a rapidez com que recebi parte da resposta que procurava caminhando para o trabalho. A pergunta? Não sei bem se é uma pergunta, prefiro chamar de inquietação. Na alma.

   A noite de ontem foi mais uma confirmação de que eu não nasci para o amor. Esse sentimento é algo que me escapa todas as vezes. Tentei resistir desta vez e estou até orgulhosa de mim. Não coloquei os dois pés no rio de uma vez, mas estava quase colocando o segundo quando a correnteza ficou forte demais. Consegui voltar para a margem. Ufa! Salva mais uma vez. Logo recuperarei o fôlego.

   As minhas divagações amorosas não são o assunto principal, fiquem calmos. Elas apenas trouxeram-me ao estágio onde agora estou. O da filosofia poética e barata de alguém que não é Paul Valéry e que, portanto, não deveria atrever-se a expor seus pensamentos.

   Voltando aos meus pensamentos iniciais, enquanto caminhava para o trabalho, comecei a raciocinar sobre o que eu estava sentindo. Lembrei dos Quatro Mineiros do Apocalipse (Fernando, Otto, Hélio e Paulo) e da mania de puxar angústia. A prática os fazia bem, não só a eles. A literatura mineira agradece. Será que dor faz tão bem aos escritores?

   Admito que a inspiração não aparecia há dias. As frases que escrevo agora são fruto desta sensação de aperto misturada com a vontade de gritar. Reviver a dor, “puxar angústia”. Eis-me aqui, remoendo o que não posso mudar.

   O sentimento não importa tanto quanto o sentir, seja lá qual for o motivo da dor. Caminhando para o trabalho, durante quinze minutos, cheguei à seguinte pergunta: Será que os escritores (ou aqueles que querem ser) precisam da dor para deixar fluir o que insistem em aprisionar? Escrevo mais em dias como o de hoje. Sou mais sincera. Liberto mais as palavras em momentos como este.

   A maioria das pessoas procura estar bem o tempo todo. Na opinião do meu amigo Paul Valéry, são os que escrevem mal. Não sou uma pessoa depressiva e procuro ver o lado bom das coisas ao redor. Mas basta encontrar um pequeno motivo para que eu me entregue às sensações mais doloridas. Não resisto.

   Agora preciso voltar para o aluguel da pena, o nada literário Jornalismo. “Em poesia, trata-se, antes de mais nada, de fazer música com a própria dor, a qual diretamente não importa.” Paul Valéry

Tiago, preciso que você me ensine a regra para usar “este, esse” etc e tal. Sou péssima.

→ 3 ComentáriosCategorias: Uncategorized

Itinerante

Agosto 16, 2007 · 3 Comentários

ATENÇÃO: A crônica abaixo está inacabada. Fiquei com uma enorme preguiça desta história. Se você continuar, será por sua conta e risco.

Quando olhei para os degraus que desciam um atrás do outro sem parar, lembrei das palavras do meu primo da capital: “Vocês, do interior, só vem à Belo Horizonte para descer e subir pela escada rolante do shopping”. Fiquei profundamente ofendida com a brincadeira, é claro, mas naquele momento eu não estava preocupada com o que ele pensava. Minha mãe atrás de mim não estava tão à vontade com a escada rolante e meu pai precisou descer ao seu lado para evitar uma tragédia.   Lá embaixo estava o tesouro que fez meus pais saírem da nossa cidade no sábado à tarde: a maior exposição itinerante dos Beatles. Ao contrário do que vocês devem estar pensando, não fui eu quem pediu para me levarem. Aliás, nem fui convidada, tive que me oferecer depois de ouvir uma conversa pelas metades na hora do almoço. É a minha mãe a grande fã do quarteto inglês.   O movimento no shopping era intenso e muitas pessoas passeavam ao redor das fotos penduradas em biombos de madeira. Acho que eram oito biombos com os momentos pregados em quadros, onde os músicos mais famosos do mundo faziam poses ou eram eternizados sem perceber. A cada fase, um visual diferente: franjas e cabelo arredondados, ou barbudos, cabeludos e mais velhos. Nem sempre sorridentes, nem sempre juntos.  Se não fosse pelo ruído intenso de conversas dos que não estavam interessados em nada mais do que comprar, seria possível ouvir a música que tocava aos pedaços em minha cabeça. “Say you want a revolution / We better get on right away / Well you get on your feet / And out on the street / Singing power to the people…” Eu sei, essa é só do John, depois da Yoko. E ela também estava lá, toda vestida de branco.   Por baixo dos biombos, eu podia ver os pés das pessoas do outro lado. Pés que se movimentavam bem devagar, parando a todo instante. Comecei a reparar nos calçados e tentar adivinhar o rosto do seu dono, se era homem ou mulher, jovem ou velho…Estas coisas bobas que fazem com que a gente tente decifrar como a pessoa é por dentro. Confesso que fui surpreendida na maioria das vezes.   Depois de seguir diversas pessoas ao redor dos biombos, decidi levantar a minha cabeça antes que alguém duvidasse da minha sanidade mental. Quase trombei em uma placa grande que explicava o significado de um círculo no chão, com duas rosas brancas e com a palavra “Imagine” no centro. Era uma réplica da Mandala original do Central Park, em Nova Iorque. Na exposição, os visitantes também podiam deixar as suas mensagens de paz e amor. Fiquei olhando para a Mandala, imaginando demais e não escrevi nada para a posteridade.

→ 3 ComentáriosCategorias: Uncategorized

Covardia ou coragem?

Agosto 10, 2007 · 3 Comentários

“Eu tenho medo de ser quem eu sou. Há um silêncio total dentro de mim. Assusto-me.” Clarice Lispector 

   Há menos de um mês em um emprego público, comecei a descobrir como somos ingênuos. Durante uma reunião de trabalho ontem à tarde, experimentei um misto de sensações. Exceto a confusão que elas me causaram, não senti nada de novo. Conheço muito bem a indignação, a tristeza, a raiva e a repugnância. Mas confesso que experimentar todas essas sensações juntas foi assustador.

   O tema (que ainda não especifiquei) pode parecer clichê ou inútil para muitos de vocês. Acontece que sou nova na área e ainda por cima sou idealista. Acredito que minhas atitudes podem mudar o mundo e, sinceramente, tento sonhos. O problema é que também conheço a alegria, a satisfação, a humildade e prefiro conservar este tipo de sensação dentro de mim. Não estão entendendo nada?

   Já que vivo em um mundo capitalista e explorador, não posso escolher onde fazer estágio. Preciso terminar a faculdade e, por enquanto, o dinheiro é mais importante do que a satisfação ética e profissional. Não sou mal agradecida, longe disso, o estágio é uma grande oportunidade. Ou uma grande risco? Sou uma pré-formanda de sorte?

   Voltemos para a reunião. Ela é realizada mensalmente com o objetivo de instruir e coordenar os comunicadores sobre como agir com a imprensa e os secretários. Através de aulas no Power Point, o excelentíssimo marketeiro educa os seus homens da comunicação sobre a melhor forma de enganar, manipular e distorcer informações. Eu sou uma das mulheres da comunicação agora, preciso aprender a fazer o que repudio. Fico calada e escuto atentamente.

   Não é necessário que eu reproduza aqui a aula na íntegra cheia de frases como: “rádio peão”, “cabeças pensantes” e “trabalhadores manipuláveis”. Pessoal, a coisa é mais preta do que vocês imaginavam! Conhecer  na prática o que você aprende na faculdade (e ainda alguns detalhes extras) é uma experiência inesquecível. E aterrorizante.

   Mais do que me perguntar “o que estou fazendo aqui?”, porque isso eu sei (leia-se sem saída), tive medo de uma pergunta que rodava em minha cabeça. O que vão fazer de mim? O que eles querem fazer está na cara. Querem que eu me transforme num deles, enganadora e vendida. A questão talvez seja: o que vou deixar que façam de mim?

   Ainda estou um pouco confusa e não pensem que estou segura quanto ao que vou escrever aqui, entretanto, não vejo outra alternativa. Acredito que para lutar contra o inimigo, é preciso conhecê-lo. Não há lugar melhor do que onde estou para conhecer as suas fraquezas e, futuramente, vence-las. Concordam?

   Tenho medo do que o destino está fazendo da minha vida e para onde ele está me levando. Tenho medo de, após muito tempo de convivência, me contaminar com a sujeira daqui esquecer o que realmente acredito. Preciso estar sempre alerta para ouvir e não aderir.

→ 3 ComentáriosCategorias: Uncategorized

O Sol

Julho 30, 2007 · Deixe um comentário

Ele sorriu. Ao posicionar a câmera e antes de registrar a cena, ele sorriu A cena que seus olhos contemplaram pouco importa. O que me emocionou foi o sorriso. O mais belo e talvez o mais sincero que já vi. Talvez… Não. O mais sincero que tive a oportunidade de ver. Tão intenso e tão profundo que o senti. Através de todos os meus sentidos. Foi como se aquele sorriso entrasse por todos os lados da minha cabeça. Foram poucos segundos. Do canto onde eu estava, observava seus movimentos. De joelhos, agachado, procurando o melhor ângulo. Ele andava como um gato pelos lados, abaixando-se. Procurando ser imperceptível. O que quase conseguiu até sorrir. Que magia esta arte possui? Falo da arte da fotografia que ilumina o seu rosto, que lhe dá mobilidade e esta capacidade de sorrir. Sinceramente, escrevo porque fiquei incomodada. Um pouco enciumada, confesso. É fato. Que sorriso é esse? Tão preocupado sem deixar de ser pesado. Algo que o engrandece, torna-o mais humano, mais menino. Sorriso de alguém que brinca recortando momentos importantes. Sorriso que não irá se repetir, não exatamente como este. E eu vi. Com a câmera da memória eu o registrei. O que me deixa mais feliz é tê-lo visto sorrir com aquela intensidade. Com a câmera nas mãos, como se fosse parte de seu corpo, e antes de emoldurar o instante, ele sorriu.

→ Deixe um ComentárioCategorias: Uncategorized

O raio

Julho 24, 2007 · 3 Comentários

  __ Ainda não acredito que vocês estão me obrigando a viajar! – ela bateu a porta do carro ao entrar.   Os seus pais, que esperavam-na no carro há quase quinze minutos, entreolharam-se. A mãe arriscou responder ao grito de protesto da filha adolescente:

   __ A sua avó mora a uma hora e meia daqui, Letícia. Não é exatamente uma viagem.

   __ Uma semana! Mãe, você tem noção do que é passar sete dias inteiros em uma roça? São cento e sessenta e oito horas!

   __ Eu cresci naquele lugar, Letícia e não é uma roça. Chama-se cidade do interior.

   __ Tanto faz, pai! Eu não quero ir.

   __ Acho que você está vendo televisão demais. A vida não é um filme. Você tem apenas dezesseis anos, minha filha. Por enquanto, obedecerá à sua mãe e a mim!

   Eduardo aumentou o som do carro e continuou a dirigir fingindo indiferença. Sentia-se inquieto, não conseguia acostumar-se com a filha que Letícia estava se tornando. Lembrou de que, quando era criança, ela adorava passar as férias na casa da avó. E agora tinha paixão pela cidade grande, quase não saía de casa. A vida urbana tornou-se sinônimo de comodismo solitário.

   Alcançaram, enfim, a estrada. O Sol escondia-se atrás dos morros. O vento entrava pela janela do carro. Letícia não queria estragar o penteado, portanto fechou o vidro. Ligou o seu ipod e, colocando os fones de ouvido, tentou esquecer para onde aquele asfalto iria levá-la. Uma semana. Se ao menos pudesse levar o computador!

   Letícia gostava da avó Marina, o problema era que a velhinha morava sozinha em uma fazenda, com varanda e galinhas no quintal. Estava sempre bordando, cozinhando e contando histórias. Sentia uma alegria incompreensível por viver ali, rodeada de muito verde. Como ela vivia sem telefone?

   A noite estava escura demais quando os três passaram pela porteira com destino a casa pintada de vermelho e branco. Enquanto Eduardo retirava as malas do carro, Letícia ficou parada estranhando a noite sobre ela. Pequenos raios cortavam a imensidão negra.

   A contemplação foi interrompida pelo Jeremias, o cão da raça São Bernardo que vivia na fazenda há dez anos. Jeremias veio correndo da varanda e jogou Letícia na grama. O cão lambia as bochechas da garota que, felizmente, foi socorrida por sua avó.

   __ Você continua uma menina diferente. O Jeremias só joga no chão as visitas mais especiais… – Marina falou socorrendo a neta.

   __ Que bela recepção, não é vó? Acho que vou tomar outro banho!

   __ Deixe de ser rabugenta, Letícia, abrace a sua avó! – Regina repreendeu a filha.

   Marina abraçou Letícia e levou todos para dentro da casa. O jantar estava pronto sobre a mesa e cheirando muito bem. Jeremias ficou do lado de fora, para alívio da garota.

   A casa era grande e muito antiga. As paredes altas e as janelas por todos os lados aumentavam ainda mais o interior do casarão. O assoalho rangia alto em alguns pontos do piso. Talvez o barulho passasse despercebido em outro lugar, mas como era o som mais alto, além da voz de Eduardo, incomodava bastante.

   Enquanto comiam e contavam as novidades, Letícia quase esqueceu a sua resistência em estar naquela cidade. Ao olhar para o seu celular sobre a mesa, logo se chateou novamente. Não havia sinal para nenhuma ligação pelo aparelho. Sentiu-se ilhada, sem conexão alguma com o seu mundo habitual.

   Regina ainda retirava os pratos sujos da mesa, quando Letícia lembrou-se de que seu seriado de TV favorito já deveria estar começando. Ela deixou os pais em uma conversa animada com a avó na cozinha e jogou-se no sofá com o controle remoto nas mãos.

   Da sala onde estava podia escutar a risada do pai. Aumentou o volume da televisão e, no primeiro comercial, olhou à sua volta. Uma cesta de palha cheia de rolos de lã e agulhas de tricô estava ao lado do sofá.

   O que parecia ser o início de um casaco azul dentro da cesta chamou a atenção de Letícia. Segundos depois, uma grande luz cortou o céu e a casa ficou totalmente escura. Em seguida, a garota ouviu o barulho da chuva e do vento forte balançando as árvores lá fora.

   Letícia não se levantou do sofá. Não conseguia enxergar nada e sentia medo. Antes que pudesse gritar, sua avó chegou na sala trazendo uma vela nas mãos. A pequena luz fez com que a jovem sorrisse pela primeira vez desde que saiu de sua casa.

   Marina respondeu o sorriso da neta com um ainda maior. Ela entregou a vela nas mãos de Letícia sem falar nada e foi fechar as duas janelas da sala. Regina e Eduardo chegaram trazendo mais velas, eles sabiam o quanto sua filha tinha medo do escuro.

   Os raios iluminavam a sala a cada minuto. Um arrepio passava pelo corpo de Letícia todas as vezes que ela escutava um trovão. Parecia que estava em um filme de terror americano. O clima tenso aumentava porque todos estavam em silêncio, escutando os sons da fazenda sob a chuva.

   __ Acha que eles vão chegar bem, mãe?

   __ Não sei, Eduardo, já deveriam estar aqui. – Marina falou preocupada olhando pela janela. Um raio iluminou a propriedade.

   Letícia não entendia nada. Quem já deveria ter chegado? Que mistério era esse que sua avó insistia em manter? E o pior é que ela estava realmente preocupada, chovia forte. Tomara que nenhum assassino entre sorrateiramente.

   A porta da frente rangeu e ouviu-se muitos passos apressados no assoalho. Marina levantou-se do sofá e saiu em direção à porta da sala. Letícia encolheu-se ainda mais ao lado do pai. Antes que a avó saísse, um grito acabou com o suspense:

  __ Oi vó! – três crianças e dois adolescentes encharcados gritaram ao entrar na sala. Marina sorriu e abraçou os netos, enquanto dois casais entravam em seguida.

   Letícia sentiu-se aliviada ao ver os parentes lotando a sala de TV da avó. Ainda bem que não eram assassinos! A garota ficou muito feliz em rever os primos e tios, não se falavam desde o Natal. Todos se cumprimentaram e disputaram lugares na sala para ouvir as histórias da Marina.

   Ao lado dos pais, Letícia não se importou com nada do que havia deixado na cidade grande. Ela não conseguia lembrar-se de nada mais importante do que estar ali. Não conseguia lembrar-se de nada relevante antes daquele raio.

→ 3 ComentáriosCategorias: Uncategorized

Junho 7, 2007 · Deixe um comentário

Olha o céu a!

→ Deixe um ComentárioCategorias: Uncategorized

A descoberta

Junho 7, 2007 · 1 Comentário

Tinha quatro ou cinco anos, no máximo. Estava debruçada sobre a janela aberta, ajoelhada no sofá da sala, balançando calmamente os pequenos pés. Fazia calor naquela noite de verão e a menina observava o céu estrelado. Lua não havia.

Nunca tivera nenhum interesse especial pelo céu até então. A menina brincava pela casa quando ouviu o zumbido de um pernilongo e resolveu seguí-lo. Quando o inseto passou pela fresta da janela entreaberta, sua seguidora ainda tentou alcançá-lo com a mão. Mas o que conseguiu foi abrir a enorme janela de madeira da sala. E, de repente, viu toda aquela imensidão escura. Sem saber porquê, parou. De tanto olhar os pontinhos brilhantes, ficou cansada. Apoiou o queixo sobre os bracinhos cruzados, deixando o cabeço trançado do lado de fora da janela.

O silêncio repentino fez a sua mãe, que assistia à novela, procurar pela filha:

__ O que vê, Manoela? – a mãe perguntou sem tirar os olhos da TV.

A pequena não respondeu, o que era ainda mais preocupante. Àquela hora a cidade tornava-se perigosa. Será que alguém observava a menina? “Melhor tirá-la da janela”, pensou.

__ Mãe, o que são estes pontinhos brilhando lá em cima? – Manuela perguntou apontando para o alto.

__ São estrelas.

__ O que são estrelas?

__ Difícil…- como explicar o universo para uma criança? – Elas são como o Sol, filha, só que menores. Bem menores.

Manuela olhou novamente para o céu e imaginou como seria se todas as estrelas fossem grandes como o Sol. As pessoas usariam óculos escuros o tempo todo e beberiam muito mais água.

__ Por que eu não vejo as estrelas quando está de dia, mãe? Elas somem?

__ A luz do Sol é tão forte que as esconde. Mas as estrelas continuam lá, paradinhas… – a mãe disse achando graça na curiosidade de Manuela.

Pondo-se de pé no sofá, Manuela olhava fixamente para o céu. Como se quisesse enxergar algo além do que estava diante dela.

___ E o que tem lá, mãe?

___ No céu? – a menina confirmou balançando a cabeça – Bem… Existe algo que se chama universo e nós vivemos nele. São muitos planetas e estrelas. É tão grande que não podemos ver o fim.

__ Nossa! – os olhos de Manuela brilhavam – E quem disse que existem tantos planetas assim? – desafiou ainda a menina.

__ Nunca teremos certeza. É preciso acreditar, Manuela. – falou colocando a menina em seu colo.

As duas contemplavam o belo céu. As estrelas formavam diferentes desenhos cintilantes. A mãe apontava as maiores estrelas, enquanto pensava na insignificância da Terra como parte do universo. Como um planeta tão grande  podia parecer um grão de poeira? Ela também guardava perguntas que não poderiam ser respondidas.

Manuela, acomodada no colo da mãe, lembrou do dia em que seu pai lhe mostrou o mar. Tão azul! Enorme! Também não conseguiu avistar o seu fim, entretanto, seu pai havia dito que o mar terminava em algum lugar. Por que o universo seria diferente? Ele também deveria ter o seu ponto final.

__ Quando eu aprender a voar, mãe, quero viajar por todos os lugares do universo! – a menina abriu os braços, mostrando o tamanho da viagem que pretendia fazer.

Sorrindo, a mãe lhe disse:

__ Temo que isto não será possível, manuela. São muitos os lugares que você teria que percorrer…

Pulando do colo da mãe e olhando em seus olhos, Manuela também sorriu. O brilho das estrelas era menor do que o dos olhos da menina. Antes de voltar a perseguir o pernilongo, que entrava novamente pela janela, respondeu:

__ Mãe, é preciso acreditar!

→ 1 ComentárioCategorias: Uncategorized

Ferreira Gullar (O desespero de ser dois)

Abril 28, 2007 · Deixe um comentário

(O desespero de ser dois) Ferreira Gullar

→ Deixe um ComentárioCategorias: Uncategorized

Transição

Abril 28, 2007 · 1 Comentário

“Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?”

Adoro o poema Traduzir-se, do Ferreira Gullar. Um dia o encontrei por acaso, em um site de releituras. Estava escrito alí tudo o que eu ainda não tinha descoberto sobre mim. Não entendi tudo com tanta clareza e só agora começo a perceber os motivos do meu interesse. Traduzir-se faz parte de tudo o que eu sempre senti sem compreender e que nunca soube viver.

Como sou feita de metades, esse texto continua no próximo post.

→ 1 ComentárioCategorias: Uncategorized