__ Ainda não acredito que vocês estão me obrigando a viajar! – ela bateu a porta do carro ao entrar. Os seus pais, que esperavam-na no carro há quase quinze minutos, entreolharam-se. A mãe arriscou responder ao grito de protesto da filha adolescente:
__ A sua avó mora a uma hora e meia daqui, Letícia. Não é exatamente uma viagem.
__ Uma semana! Mãe, você tem noção do que é passar sete dias inteiros em uma roça? São cento e sessenta e oito horas!
__ Eu cresci naquele lugar, Letícia e não é uma roça. Chama-se cidade do interior.
__ Tanto faz, pai! Eu não quero ir.
__ Acho que você está vendo televisão demais. A vida não é um filme. Você tem apenas dezesseis anos, minha filha. Por enquanto, obedecerá à sua mãe e a mim!
Eduardo aumentou o som do carro e continuou a dirigir fingindo indiferença. Sentia-se inquieto, não conseguia acostumar-se com a filha que Letícia estava se tornando. Lembrou de que, quando era criança, ela adorava passar as férias na casa da avó. E agora tinha paixão pela cidade grande, quase não saía de casa. A vida urbana tornou-se sinônimo de comodismo solitário.
Alcançaram, enfim, a estrada. O Sol escondia-se atrás dos morros. O vento entrava pela janela do carro. Letícia não queria estragar o penteado, portanto fechou o vidro. Ligou o seu ipod e, colocando os fones de ouvido, tentou esquecer para onde aquele asfalto iria levá-la. Uma semana. Se ao menos pudesse levar o computador!
Letícia gostava da avó Marina, o problema era que a velhinha morava sozinha em uma fazenda, com varanda e galinhas no quintal. Estava sempre bordando, cozinhando e contando histórias. Sentia uma alegria incompreensível por viver ali, rodeada de muito verde. Como ela vivia sem telefone?
A noite estava escura demais quando os três passaram pela porteira com destino a casa pintada de vermelho e branco. Enquanto Eduardo retirava as malas do carro, Letícia ficou parada estranhando a noite sobre ela. Pequenos raios cortavam a imensidão negra.
A contemplação foi interrompida pelo Jeremias, o cão da raça São Bernardo que vivia na fazenda há dez anos. Jeremias veio correndo da varanda e jogou Letícia na grama. O cão lambia as bochechas da garota que, felizmente, foi socorrida por sua avó.
__ Você continua uma menina diferente. O Jeremias só joga no chão as visitas mais especiais… – Marina falou socorrendo a neta.
__ Que bela recepção, não é vó? Acho que vou tomar outro banho!
__ Deixe de ser rabugenta, Letícia, abrace a sua avó! – Regina repreendeu a filha.
Marina abraçou Letícia e levou todos para dentro da casa. O jantar estava pronto sobre a mesa e cheirando muito bem. Jeremias ficou do lado de fora, para alívio da garota.
A casa era grande e muito antiga. As paredes altas e as janelas por todos os lados aumentavam ainda mais o interior do casarão. O assoalho rangia alto em alguns pontos do piso. Talvez o barulho passasse despercebido em outro lugar, mas como era o som mais alto, além da voz de Eduardo, incomodava bastante.
Enquanto comiam e contavam as novidades, Letícia quase esqueceu a sua resistência em estar naquela cidade. Ao olhar para o seu celular sobre a mesa, logo se chateou novamente. Não havia sinal para nenhuma ligação pelo aparelho. Sentiu-se ilhada, sem conexão alguma com o seu mundo habitual.
Regina ainda retirava os pratos sujos da mesa, quando Letícia lembrou-se de que seu seriado de TV favorito já deveria estar começando. Ela deixou os pais em uma conversa animada com a avó na cozinha e jogou-se no sofá com o controle remoto nas mãos.
Da sala onde estava podia escutar a risada do pai. Aumentou o volume da televisão e, no primeiro comercial, olhou à sua volta. Uma cesta de palha cheia de rolos de lã e agulhas de tricô estava ao lado do sofá.
O que parecia ser o início de um casaco azul dentro da cesta chamou a atenção de Letícia. Segundos depois, uma grande luz cortou o céu e a casa ficou totalmente escura. Em seguida, a garota ouviu o barulho da chuva e do vento forte balançando as árvores lá fora.
Letícia não se levantou do sofá. Não conseguia enxergar nada e sentia medo. Antes que pudesse gritar, sua avó chegou na sala trazendo uma vela nas mãos. A pequena luz fez com que a jovem sorrisse pela primeira vez desde que saiu de sua casa.
Marina respondeu o sorriso da neta com um ainda maior. Ela entregou a vela nas mãos de Letícia sem falar nada e foi fechar as duas janelas da sala. Regina e Eduardo chegaram trazendo mais velas, eles sabiam o quanto sua filha tinha medo do escuro.
Os raios iluminavam a sala a cada minuto. Um arrepio passava pelo corpo de Letícia todas as vezes que ela escutava um trovão. Parecia que estava em um filme de terror americano. O clima tenso aumentava porque todos estavam em silêncio, escutando os sons da fazenda sob a chuva.
__ Acha que eles vão chegar bem, mãe?
__ Não sei, Eduardo, já deveriam estar aqui. – Marina falou preocupada olhando pela janela. Um raio iluminou a propriedade.
Letícia não entendia nada. Quem já deveria ter chegado? Que mistério era esse que sua avó insistia em manter? E o pior é que ela estava realmente preocupada, chovia forte. Tomara que nenhum assassino entre sorrateiramente.
A porta da frente rangeu e ouviu-se muitos passos apressados no assoalho. Marina levantou-se do sofá e saiu em direção à porta da sala. Letícia encolheu-se ainda mais ao lado do pai. Antes que a avó saísse, um grito acabou com o suspense:
__ Oi vó! – três crianças e dois adolescentes encharcados gritaram ao entrar na sala. Marina sorriu e abraçou os netos, enquanto dois casais entravam em seguida.
Letícia sentiu-se aliviada ao ver os parentes lotando a sala de TV da avó. Ainda bem que não eram assassinos! A garota ficou muito feliz em rever os primos e tios, não se falavam desde o Natal. Todos se cumprimentaram e disputaram lugares na sala para ouvir as histórias da Marina.
Ao lado dos pais, Letícia não se importou com nada do que havia deixado na cidade grande. Ela não conseguia lembrar-se de nada mais importante do que estar ali. Não conseguia lembrar-se de nada relevante antes daquele raio.