A literatura e o cinema têm o dom de me transportar – e acredito que isso acontece com muita gente – para lugares onde nunca imaginei ir. Mas alguns livros e filmes específicos conseguem me surpreender ainda mais, pois são capazes de me levar para cantos que eu não conhecia dentro de mim. Ou até mesmo acordar algum ideal adormecido, lembrar-me que não sou apenas um ser que come e dorme. E o que considero mais importante: sempre volto a escrever depois deste despertar.
Desta vez, demorei um pouco mais do que de costume para organizar as idéias e colocá-las para fora em forma de texto. Prefiro acreditar que estou seguindo uma das cinco conferências de Ítalo Calvino no livro “Seis propostas para o próximo milênio”: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência – lembrando que o autor nos deixou órfãos da última, pois morreu antes de escrevê-la. No caso, estou seguindo parte dos princípios da rapidez, que consiste em deixar que o texto seja criado dentro de mim antes de ser escrito. Assim, quando você se dispõe a redigir, ele flui rapidamente. Mas encerro as considerações sobre Calvino por aqui, ou estarei indo de encontro a principal característica da rapidez, que é poupar o leitor de certos detalhes em favor da lógica narrativa.
O que quero dizer é que o filme “Na natureza selvagem” (Into the Wild), baseado no livro homônimo escrito pelo jornalista Jon Krakauer, é mais uma destas produções capazes de acordar ideais adormecidos. Apesar de ainda não ter lido o livro, ouso até classificá-lo como o bom e velho jornalismo narrativo, já que o jornalista saiu a campo para registrar uma história real, através de entrevistas com familiares e anotações pessoais de Christopher McCandless, o personagem principal.
Após concluir a faculdade e se especializar em História e Antropologia, influenciado por nomes como Tolstoi, Thoreau, Jack London, entre outros, o jovem Christopher doa os 24 mil dólares que guardava na poupança para entidades carentes, abandona sua identidade (adotando o nome de Alexander Supertramp) e pertences e desaparece pegando carona nas estradas dos Estados Unidos. No início pode parecer um ato estúpido de um “pobre garoto de classe média” tentando chamar a atenção, Mas é só continuar acompanhando o filme para perceber que ele não pertencia aos padrões sociais que tentavam lhe impor. E, no mais, leiam e assistam.
Não acredito que conseguiria viver longe da sociedade como Christopher fez, mas comecei a pensar se realmente necessito de tudo o que tentam me convencer a comprar, desejar. E a resposta foi não. Nunca segui padrões de consumo do tipo “compre, pois está na moda” e “você não pode viver sem a mais nova tecnologia”, mas se você não parar para analisar o seu dia-a-dia, começa a deixar-se levar por valores que não são os seus e acreditar em coisas que nem sabe de onde vieram.
Não é uma alternativa em minha vida me afastar das pessoas que amo e viver de caça e pesca como Christopher, mas não estou disposta a me vender para uma sociedade consumista só para ter meu nome nas grandes rodas. Vivendo de mentiras e preocupada com as aparências. Prefiro fazer alguma diferença, mesmo que seja mínima.
Não falo de atitudes tão siginificativas para os olhos alheios; nem todos têm 24 mil dólares para doar, ou nem querem (rs). Talvez o seu “grande gesto” esteja disfarçado e pareça pequeno, mas acho que o importante mesmo é o que ele é. Assim como nós, ser é mais importante do que parecer. Ou não?
É preciso olhar mais vezes para dentro e descobrir do que realmente precisamos para viver. E como podemos fazer tal diferença em nossa realidade. O que é indispensável? Como posso colocar em prática o que acredito? E no que acredito? Pois, se descuidarmos de nós mesmos, corremos o risco de nem saber se certos pensamentos são nossos ou daqueles que nos rodeiam.
Como o próprio Christopher McCandless concluiu após a sua aventura em busca de si mesmo, “a felicidade só é real quando compartilhada”. Mas acrescento que a felicidade será ainda mais real quando compartilharmos atitudes e pensamentos verdadeiros, que tenham a capacidade de nos mover e não alienar.