Linguagens

Divagações sobre a dificuldade

Setembro 8, 2009 · 2 Comentários

“A carne é um fardo, verdade.

Mas é difícil a nossa incumbência,

quase tudo o que é sério é difícil,

e tudo é sério.”

Rilke

Ainda não sabia -

E só fui descobrir ontem -

que as coisas devem ser difíceis.

Não só as coisas,

como todo o resto de que é feito o mundo.

Ou melhor, o universo que existe em cada um de nós.

Mas, por quê?

E para quê?

Pensando bem,

faz muito sentido.

Ou só faz sentido porque é difícil.

Então -

continuei a pensar -

por que insistir em procurar o caminho mais fácil?

Façamos um trato:

Vamos deixar de ser preguiçosos!

(Não falei que era um trato fácil…!)

A gente consegue…

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Inconstância

Maio 29, 2009 · 1 Comentário

“O correr da vida embrulha tudo.

A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,

sossega e depois desinquieta.

O que ela quer da gente é CORAGEM.”

João Guimarães Rosa

Será que algum dia ela vai se acertar nesta vida? O que quero dizer com isso? Ter um rumo certo, claro.  Certo não é a palavra… hum… Um rumo constante? Linear? Ou sempre estará de mudança, em movimento constante? Talvez seguindo os ventos do norte ou a estrada de tijolos amarelos. Ela gosta do movimento, como o da copa das árvores agitadas pelo vento, ou dos carros passando ao seu lado e fazendo um barulho irritante. Todo esse movimento que é existir. É inútil fugir da estrada – ora ela está na estrada, ora a estrada está dentro dela. Fazendo com que ela se mova, tome atitudes de repente e siga novos/outros/velhos caminhos. Ela não é uma pessoa constante, adulta, equilibrada. Por isso o seu caminho não pode ser. É pedir demais. E quem é que está pedindo? Mesmo se ela quisesse fazer isso algum dia, sua inconstância a desviaria.  Ah, isso é certo. Parece que nada deve ser permanente, e que o mundo só está esperando que ela decida aonde vai para girar outra vez. Mas pensar isso seria pretensão demais. É mais fácil acreditar que ela está girando para o lado oposto, que ela espera a rotação se firmar para mudar a direção de novo. É que ela aprecia o movimento, sabe? Muita calmaria não é para ela. Entretanto, talvez nem isso seja constante…

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Se é pouco que eu vejo, é muito

Abril 29, 2009 · 2 Comentários

Ele ascendeu-se dia
então abriu o céu com você
e teve tempo de molhar os punhos
e coragem pra secar os olhos

Ela sempre vê bobagem
lê dentro de mim no escuro
só ela sabe o que…

Vamos deixar isso entre ele e você
vamos cantar isso entre ele e você
vamos sangrar isso entre ele e você

Se é pouco que eu vejo, é muito
o que meus olhos teimam ver, em você
no que ainda está aqui
ainda que…

Vamos deixar isso entre ele e você
vamos sangrar isso entre ele e você
vamos sonhar isso entre você e eu

Por que deu errado?
Por que fez saudade?
e choveu o rio
e secou o dia
Por que deu saudade?
Por que fez errado?
Por que secou o rio e choveu no dia?

Entre ele e você – Vanguart

A chuva caiu, mas esta música não quer sair da minha cabeça há dias, e hoje ficou um pouco pior. Tentei escrever, mas meu cérebro só queria produzir trechos da letra. E olha que eu até tenho o que escrever. rs! Segui as recomendações do Rilke:

“Imploro a você que desista de tudo isso. Você está olhando para fora, e, de todas as coisas, é essa que você não deve fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Só existe um meio. Vá para dentro de você mesmo. Descubra o motivo que lhe pede que escreva; examine se suas raízes estão nas partes mais profundas de seu coração, confesse a você mesmo se morreria se escrever lhe fosse negado. Isto, antes de qualquer outra coisa: pergunte a si mesmo, na calada da noite: ‘Sou obrigado a escrever?’. Escave fundo dentro de você mesmo para encontrar uma resposta profunda. E, se for afirmativa, se você puder responder a essa indagação solene com um forte e simples ‘tenho que fazê-lo’, então construa sua vida de acordo com essa necessidade”.

Sou obrigada a escrever, “tenho que fazê-lo”, Rilke. Mas é que também tenho essa coisa estranha por aqui, esse trem… alguém que “lê dentro de mim no escuro”, entende? Aí só consigo cantar agora.

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Cadáver vivo

Abril 6, 2009 · 5 Comentários

“Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perfeita. (…) Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.”

(Bernardo Soares – Livro do Desassossego)

Sensação estranha. Não é vazio, é diferente. Comecei a puxar angústia, chamei até o bom e velho apego, pra ver se seria um pouco mais fácil sentir. Anestesiada? Pode ser. Arriscaria cansada, mas tem gente por aí que está muito mais cansada, sá. Não pode ser só isso. Antes, qualquer questãozinha que exigia desapego já deixava os cabelos em pé e a caneta em posição de ataque. Agora, pode ser… As coisas estão um pouco diferentes (um pouco?). Não se chora mais por qualquer desilusão por aqui. É isso que chamam de aprender? De crescer? Eu acredito mais na ideia de um disfarce qualquer. Mas não me julguem, não planejei isso! Aconteceu, assim, como quando as nuvens vão se juntando no céu, até ficar tudo escuro no meio do dia e cair aquela chuva gostosa. Tô parada aqui, esperando pra ver se a chuva cai, porque, por enquanto, só ouvi trovões. E bem fraquinhos. Talvez se eu parasse de querer assumir o controle… Nem pensar! Já fiz isso. E dá complicação demais! Então pare de reclamar. Uma hora dessas a chuva cai. Cai?

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E o nosso encontro?

Janeiro 29, 2009 · 9 Comentários

Acordei hoje querendo escrever. Querendo escrever algo que fosse mesmo muito interessante. Talvez não tão interessante do jeito que todos vão gostar, mas algo que faça com os outros o que alguns escritos fazem comigo. Depois entendi que é uma bobagem esta história de querer escrever o que os outros vão gostar, já que escrevemos é o que está dentro da gente. Então, escrevemos pra nós mesmos. O que as pessoas vão sentir ao ler suas palavras tem a ver com a que está dentro delas.

Mas de onde veio essa vontade? De uma carta que encontrei por acaso, perdida no meio de outras. Ela não deveria estar ali, pois pertence a uma “coleção” especial, sabe… A coleção de um certo amigo meu, distante agora, mas sempre presente. Alguém com quem já falei muito sobre essa história do que os escritos nos fazem sentir.

Estou com saudade, Raul. Tanta, que essas palavras, no início, nem eram para você. As palavras tomaram a direção que quiseram. – Por isso, peço licença para escrever aqui algo que deveria ser só dele. – Faço isso porque não consigo encontrá-lo de outra maneira. Escrevendo chego mais perto de você, lhe encontro no que eu estou sentindo.

Acho que esse texto não será interessante para os demais. Mas quem sabe será para aqueles que estão longe de um certo alguém. Pode ser que esse texto faça você sentir, nem que seja saudade.

“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.”

Fernando Sabino em “O Encontro Marcado”

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Outubro 23, 2008 · 6 Comentários

Salvador, 19 de outubro de 2008

Caríssima Fernanda,

escrevo do Albergue das Laranjeiras, localizado no coração do Pelourinho. Aqui é tudo muito bonito, o povo é acolhedor e é um lugar excelente para quem gosta de subir e descer ladeiras (risos).

Estou em um quarto coletivo com dez camas. Mas o divido apenas com uma pessoa. Mulher, americana, talvez uns 20 anos. Digo talvez porque meu inglês é uma merda, então falei palavras soltas e a moça não entendeu nada. Acho que a única coisa que ficou realmente clara foi “no”, quando ela perguntou se eu falava inglês.

Apenas duas semanas se passaram. Andei por Alcobaça e Porto Seguro. No primeiro lugar, falei a verdade e decepcionei uma amiga. No segundo, estreitei laços familiares e consegui abreviar minha viagem.

Cheguei a Salvador e senti logo uma imensa vontade de voltar disfarçada de dor na garganta. Os remédios estão curando a dor, entretanto, a necessidade de estar junto dos meus não passa. Pelo contrário.

Esta história de viver é mesmo muito complicada. É preciso ir para descobrir que seu destino é ficar. Talvez não tão perto quanto antes, mas um pouco mais próximo. Uma distância que o coração agüenta.

Foi necessário partir para – mesmo em tão pouco tempo! – enxergar as minhas raízes. Eu tenho raízes, que teimei em cortar, mais profundas do que imaginei.

Belo Horizonte, 23 de outubro de 2008

Oi, Fernanda!

Já estou em terras mineiras. Ah, as montanhas… Esse ar acolhedor. Serei eu tão covarde assim que preciso estar sob a proteção de amigos e família? Só sei que a vida é muito curta pra ficar longe de quem se quer bem. Foi a melhor lição dessa mini aventura.

Aguarde e confie, em breve, novidades virão.

Beijos, Pat.

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Hora do almoço

Setembro 5, 2008 · 4 Comentários

São 11horas. Desta vez consegui chegar no melhor horário. A fila ainda não atingiu a rua. Mal tomo meu lugar atrás de dezenas de pessoas e um moço de azul (marinho) vira para trás querendo uma informação. Será que essa fila enorme é a mesma para comprar marmitex? Claro que é, moço. Para almoçar no restaurante popular e para comprar marmitex. Lá na frente, a fila se divide. Simples assim. Ah, tá! (com cara de desanimado). O Sol está forte.

Após a primeira etapa, é hora de outra fila, agora para colocar a comida. Bonito aqui, né? Graaaaaaande… (olhando para cima) É mesmo. Todos temos que lavar as mãos, moça? É bom, né… (vontade rir) Mãos limpas, bandeja vermelha na mão. Bom dia! Berinjela não, por favor. Carne ou ovo? (Ai, eu gosto tanto de ovo! Mas com o colesterol não se pode brincar) Pode ser carne… E angu!

Em que mesa vou me sentar agora? Do lado daquela mulher com três crianças e um prato? Pode ser que espirre algo em mim. E aquele vovô quietinho? Legal! Cumprimento com o olhar e pego logo meus talheres. Hum… Que delícia! E nem vou ter que lavar nada depois. Ai, ai!

De repente, duas amigas falantes sentam-se na minha frente. A de cabelo curto olha para a comida com cara de nojo. A que parece mais velha começa a criticar. Acho que cortaram o repolho com uma foice, ‘tá muito grosso! Tô achando tudo muito sem sal… Isso que eles chamam de carne?

O ódio subiu na minha cabeça, larguei meus talheres. Tenho uma antipatia de gente que reclama demais, sem motivo. Eu poderia ter me levantado, tomado a bandeja dela e gritado: Então não coma! Mas fazer o quê, se minha mãe me deu educação…

Terminei de comer engolindo junto com a comida vários palavrões em seco. Ah! Não vou estragar meu delicioso almoço por causa de duas idiotas que se preocupam em como um repolho foi picado! Ainda mais hoje, que nem enfrentei uma fila gigante. Devolvo minha bandeja e vou ao banheiro.

Parece brincadeira. Na saída, quando uma funcionária simpática estende um daqueles doces embrulhados separadamente para cada um dos que deixam o local, reencontro as idiotas. Ai, detesto este doce! Não vou agüentar: Da licença, então, que eu gosto. Passo na frente delas, ganho três doces e um sorriso de cumplicidade da moça simpática. Nem olho para trás para ver a reação das idiotas. Ganho a rua. Lá fora, as três crianças de um prato só ganham mais uma sobremesa. Segunda-feira estarei de volta.

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Meu grande gesto

Julho 14, 2008 · 6 Comentários

A literatura e o cinema têm o dom de me transportar – e acredito que isso acontece com muita gente – para lugares onde nunca imaginei ir. Mas alguns livros e filmes específicos conseguem me surpreender ainda mais, pois são capazes de me levar para cantos que eu não conhecia dentro de mim. Ou até mesmo acordar algum ideal adormecido, lembrar-me que não sou apenas um ser que come e dorme. E o que considero mais importante: sempre volto a escrever depois deste despertar.

Desta vez, demorei um pouco mais do que de costume para organizar as idéias e colocá-las para fora em forma de texto. Prefiro acreditar que estou seguindo uma das cinco conferências de Ítalo Calvino no livro “Seis propostas para o próximo milênio”: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência – lembrando que o autor nos deixou órfãos da última, pois morreu antes de escrevê-la. No caso, estou seguindo parte dos princípios da rapidez, que consiste em deixar que o texto seja criado dentro de mim antes de ser escrito. Assim, quando você se dispõe a redigir, ele flui rapidamente. Mas encerro as considerações sobre Calvino por aqui, ou estarei indo de encontro a principal característica da rapidez, que é poupar o leitor de certos detalhes em favor da lógica narrativa.

O que quero dizer é que o filme “Na natureza selvagem” (Into the Wild), baseado no livro homônimo escrito pelo jornalista Jon Krakauer, é mais uma destas produções capazes de acordar ideais adormecidos. Apesar de ainda não ter lido o livro, ouso até classificá-lo como o bom e velho jornalismo narrativo, já que o jornalista saiu a campo para registrar uma história real, através de entrevistas com familiares e anotações pessoais de Christopher McCandless, o personagem principal.

Após concluir a faculdade e se especializar em História e Antropologia, influenciado por nomes como Tolstoi, Thoreau, Jack London, entre outros, o jovem Christopher doa os 24 mil dólares que guardava na poupança para entidades carentes, abandona sua identidade (adotando o nome de Alexander Supertramp) e pertences e desaparece pegando carona nas estradas dos Estados Unidos. No início pode parecer um ato estúpido de um “pobre garoto de classe média” tentando chamar a atenção, Mas é só continuar acompanhando o filme para perceber que ele não pertencia aos padrões sociais que tentavam lhe impor. E, no mais, leiam e assistam.

Não acredito que conseguiria viver longe da sociedade como Christopher fez, mas comecei a pensar se realmente necessito de tudo o que tentam me convencer a comprar, desejar. E a resposta foi não. Nunca segui padrões de consumo do tipo “compre, pois está na moda” e “você não pode viver sem a mais nova tecnologia”, mas se você não parar para analisar o seu dia-a-dia, começa a deixar-se levar por valores que não são os seus e acreditar em coisas que nem sabe de onde vieram.

Não é uma alternativa em minha vida me afastar das pessoas que amo e viver de caça e pesca como Christopher, mas não estou disposta a me vender para uma sociedade consumista só para ter meu nome nas grandes rodas. Vivendo de mentiras e preocupada com as aparências. Prefiro fazer alguma diferença, mesmo que seja mínima.

Não falo de atitudes tão siginificativas para os olhos alheios; nem todos têm 24 mil dólares para doar, ou nem querem (rs). Talvez o seu “grande gesto” esteja disfarçado e pareça pequeno, mas acho que o importante mesmo é o que ele é. Assim como nós, ser é mais importante do que parecer. Ou não?

É preciso olhar mais vezes para dentro e descobrir do que realmente precisamos para viver. E como podemos fazer tal diferença em nossa realidade. O que é indispensável? Como posso colocar em prática o que acredito? E no que acredito? Pois, se descuidarmos de nós mesmos, corremos o risco de nem saber se certos pensamentos são nossos ou daqueles que nos rodeiam.

Como o próprio Christopher McCandless concluiu após a sua aventura em busca de si mesmo, “a felicidade só é real quando compartilhada”. Mas acrescento que a felicidade será ainda mais real quando compartilharmos atitudes e pensamentos verdadeiros, que tenham a capacidade de nos mover e não alienar.

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Notícias da minha guerra particular

Setembro 3, 2007 · 1 Comentário

   Tem um furinho rodeado por uma mancha roxa em minha mão esquerda. E não estou nem um pouco orgulhosa dele. Na verdade, estou um pouco envergonhada. Não se preocupem, não estou usando tóxicos ilícitos, nem pedindo ajuda publicamente. Apenas abusei dos entorpecentes devidamente legalizados pelo Ministério da Saúde.

   Acho que levei muito a sério a frase que o meu professor de Teoria Política disse na aula de sábado: “É compreensível que os homens precisem de entorpecentes alcoólicos para se libertar”. Se ele soubesse que eu me preparava para uma festa naquela noite, talvez não teria dito. Ou acrescentaria: “Mas não devem misturar rum com vodka, por favor”.

   Passei a manhã de domingo saindo do quarto para o banheiro discretamente, mas foi em vão. Minha mãe percebeu no ato e começou a falação. E nem adianta alegar que foi apenas um salgadinho estragado, porque a senhora minha mãe também estava na mesma festa. Ela viu a sua querida filha requebrar o esqueleto a noite toda.

   Depois de vomitar o dia todo e tomar todos os remédios caseiros disponíveis, resolvi me entregar. Cheguei no hospital às quatro da tarde com a minha mãe, meu pai e a minha carteirinha do Ipsemg. Eu sei, é muita cara de pau usar o serviço público para curar ressaca e ainda por cima levar os pais. Mas o pior vem agora.

   Depois de me olhar cinicamente, o médico bonitão achou melhor que eu tomasse um soro para hidratar. Lá fui eu para a sala de medicação toda iludida, pensando que não demoraria nada. A enfermeira colocou o soro em minha veia e aplicou o remédio, melhorei rapidinho.

   O problema é que o soro iria demorar cerca de meia hora para circular dentro de mim e eu já estava impaciente. Nos primeiros quinze minutos olhei para os lados, senti um friozinho na barriga e arranquei a agulha da minha mão. O sangue começou a sair e sujar todo o meu vestido, a enfermeira veio correndo e passou um belo sermão. Acho que ela teve vontade de perguntar quantos anos eu tinha por ter feito algo tão ridículo! “Era só pedir que eu tirava o soro pra você”, ela disse toda brava.

   Tudo bem, agora que já confessei as minhas gafes do fim de semana, posso descansar.

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Sugestão para a amiga que sofre (e o pior, que sofre sozinha)

Agosto 29, 2007 · 1 Comentário

  Eu também poderia chamar este texto de “Conselhos de uma mulher de 22 anos para uma de 17”, mas acho que conselhos são idéias de alguém que não fez alguma coisa e fica atormentando o outro para que ele faça. Algo como realizar-se em outro ser.

   Pois é, minha amiga! Você é um ser. Portanto, não preocupe-se em ser perfeita. Não sei se alguém já lhe disse: é permitido sofrer, chorar, desesperar-se. É permitido ser você.

   Já dizia a minha avó (e o Ferreira Gullar também) que “no mundo há muitas armadilhas. E o que é armadilha pode ser refúgio. E o que é refúgio pode ser armadilha”. Não quero que você caia na armadilha da falsidade. Na armadilha de uma vida inteira disfarçando sentimentos. Mascarar é uma armadilha, não um refúgio.   Será que amigas não podem dividir todos os tipos de sensações? Entre nós, há um contrato, como em um casamento, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”. Preocupo-me com você, ou melhor, com você não. E sim com a sua insistência em só nos dar alegrias.   Já está cansada da vida? Não é possível! Não!   Divido a minha felicidade com você e quero que você compartilhe comigo a sua tristeza. Sei que você acredita em outras vidas e que terá tempo de mudar o que deu errado, entretanto, eu só tenho uma. Só tenho esta chance pra intrometer na sua vida! (risos) 

“No mundo há muitas armadilhas
        e o que é armadilha pode ser refúgio
        e o que é refúgio pode ser armadilha 

Tua janela por exemplo
       aberta para o céu
       e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
     a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas
       e muitas bocas a te dizer
       que a vida é pouca
       que a vida é louca
       E por que não a Bomba? te perguntam.
       Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
       que a vida é louca? 

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
       que não sabe
       que afoito se entranha à vida e quer
       a vida
       e busca o sol, a bola, fascinado vê
       o avião e indaga e indaga 

A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade. 

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e agüentarás até o fim. 

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje 

A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.” (Ferreira Gullar)

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